25.2.06

A Tartaruga do Meio da Noite


Quarta feira, oito e dez da manhã, alguma coisa acontece no meu coração quando cruzo avenidas que se cruzam em direção a minha casa. Foi o shuffle do iPOD, eu juro! A Ná Ozetti canta because na minha orelha, enquanto o André toca o piano. Love is all, love is you. Meu cerebelo e cérebro se dividem na incrível função de não chorar e também de não ser atropelado. Volto para casa abatido, já que volto a pé da concessionária em que fui deixar o uno para revisão dos 5.000 que, na verdade, deveria ter sido aos 1.500.
Foi um começo de semana moderno, os novos alunos se acomodam ao meu redor e vice-versa. Na segunda, não ia fazer festa de aniversário, depois virou um bolo com coca-cola para a família e, no final, teve até duas garrafas de chopp belco, um claro e outro escuro. Foi a primeira vez que chopp foi servido como se fosse uísque, meio copo para cada um. Fiz um bolo desconstrutivista, gelado, que nem tirei da forma. Isso, tratando-se de minha pessoa, só pode significar um protesto contra o estabilishment e/ou um desejo de ser um novo velho alguém. Eu, o boleiro cheio das invenções, deixei meu bolo na assadeira (e ainda com uma velinha azul de cinco anos do nicolau em cima).
Segunda no final da tarde, umas duas horas antes do aniversário, eu e a claudia recebemos uma tonelada de informações sobre desenvolvimento (ou não) infantil que faz com que rumemos em zig-zag em direção ao lar. Chegamos em casa, as crianças vão tomar banho, penso, que roupa vou colocar? A família começa a chegar e nós nem fomos tomar banho ainda. As nove da noite caio na real que a roupa que eu vou colocar eu já coloquei lá pelas seis e meia da manhã. A claudia também não tomou banho e está uma pilha. A mãe dela liga para dar os parabéns e diz para ela que o irmão dela se queimou bastante com álcool quando acendia a churrasqueira. Ela vai para o quarto chorar enquanto as pessoas se divertem com o meio copo de chopp belco. Ganhei lajotinhas! Ganhei lajotinhas e o foguete do jimmy neutron!
Meu pai está no hospital ainda e nem tinha ido visitá-lo. Na noite anterior, no domingo, sonhei que encontro um amigo que já morreu. Eu estou descendo as escadas da escola/hospital e ele subindo, me diz que está indo visitar meu pai. Mesmo no sonho, espero que isso não signifique nada além de culpa.
Depois veio a segunda de aniversário. No final, após a festa, dormi a noite inteira com um algo-não-sei-o-que-ruim nos sonhos.
Na terça, vou visitar meu pai no hospital, à tarde. Pegamos as crianças na escola, elas tomam banho e vamos para a minha mãe porque meu sobrinho e irmã de botucatu estão lá. Comemos uma pizza muito boa de búffala, manjericão, tomate seco e calabreza. Meu regime insiste em não começar.
No final da noite, antes que a madrugada venha, damos uma carona para meu sobrinho que vai voltar para São Paulo. Ele fica na rodoviária e nós rumamos para casa pela caramuru. Lá pela frente, pertos dos matos e após uma curva, vejo uma tartaruga, maior que a caixa da pizza de búffala, atravessando a pista em direção ao pequeno córrego que deve estar por alí. A família de biólogos se alvoroça. "Os carros vão passar em cima dela!" Sem parar para pensar na questão do equilibrio cósmico, peço para a claudia parar o carro para eu tirá-la do meio da pista. A tartaruga continua a andar naquela velocidade típica da fábula. Os carros correm como coelhos atrasados de alice. Vou chegando perto, um carro passa e esbarra nela, que se assusta e se recolhe para dentro da casca. Estou chegando mais perto, uns quatro metros, vem um palio e passa em cima dela. Escuto o créque do casco e vejo um vermelho lá dentro como vemos quando um melancia se esborracha no chão. Não, não, não, foi questão de minutos. Ela fica lá imóvel, morta, enquanto eu volto pro carro e para família desolada. A única música que me vem à cabeça é a canção da falsa tartaruga, mas não combina com o momento.
Penso que o bolo ficou na forma e o casco duro, inquebrável, se partiu. Penso que tudo isso deve significar algo, que todos os pontos podem se conectar. Mas eu deito e espero passar.

3 comentários:

Anônimo disse...

Olá Cleido...enviei um e-mail para você no endereço (cdicas@gmail.com)...Você recebeu?...ou este e-mail não está mais ativo?....Espero sua resposta...Abraços...Marco Antonio Victorino ( marcovictorino@uol.com.br )

Cletus Vinícius disse...

A perfeita simetria das palavras na expressão de um sentimento-situação: CLEIDO.
Meu eterno professor, um grande abraço!

Anônimo disse...

Caramba!!!!cadê seus textos?!!???...o Sr. está intimado a continuar a escrever neste blog...caso contrário vou mandar criar uma comissão lá em Brasília...Abraços...VG...http:cartasatheo.blogspot.com