26.12.10

Milagre de Natal

Um dia depois do dia de natal. Dez da manhã, preciso sair e ir até o supermercado ver se meu sargent pepper está lá ainda. Escondi o petardo entre outros, no meio da prateleira de cds. Tanto tempo sem comprar nenhum mas, de repente, o revolver remasterizado por 12 reais encheu minha vida de alegria. Já tinha desistido do corpo deles, pensava ter me curado do fetiche de passar as mãos sobre sua pele lisa e cheia de significados. Mas não, tive uma recaída. Só suas almas, deixou de ter um interesse primordial. Parto em direção a seção de cds e ele está lá ainda à minha espera. Hello, Pimenta, papai veio te buscar para novas sessões de contato corporal enquanto as orelhas se deliciam com a tabla e a sitar de George.

Bem, já que estou aqui, resolvo fazer alguns cookies paras as crianças: açúcar cristal, mascavo, chocolate meio amargo, nozes. Óbvio que não vou conseguir comprar nozes no Carrefour porque sempre é muito caro. Muito caro, mas não desisto. Esta época, mesmo quando não estou muito no espírito, sempre me faz acreditar em milagres. Chego na seção de frutas, um enorme cartaz anuncia cerejas frescas por 89 centavos. Não é possível, finalmente farei minha torta de cerejas igual às servidas nos dinners americanos. Aquelas cobertas com massa, quentinhas, cujo recheio escorre vermelho e cremoso até encontrar o sorvete de creme que repousa a seu lado. Lógico que farei na massa cortes com tesoura iguais os que a Vovó Donalda fazia. Lógico que o café vai ter que ser aguado e servido em canecas. Olho para o lado e as nozes estão baratas. Isso significa que também vou fazer os cookies com pedaços de chocolate e nozes. Já disse isso outras vezes, sempre procuro padrões no caos. Feito um Einstein de quinta, sempre procuro a teoria unficadora que irá juntar tudo e tudo fará sentido.

Meu iPod no aleatório, meu I Ching de silício, mais uma vez tem a resposta para minha reflexões de supermercado. Ele (e a Alice) me diz, através das vozes da Zélia e da Alzira, que em caso de tristeza vire a mesa. Coma só a sobremesa, coma somente a cereja. A cada mil lágrimas sai um milagre.

Será que sou místico? Será que procuro um religare com o cosmos? Oh não! Será que acredito em Deus? Um Deus disfarçado de dança sincronizada de móleculas, leis do tempo-espaço, energia, criação, caos e sentido, mas ainda assim, um Deus. Será?

16.12.10

Eu Sou uma Pessoa Má

Acredito no poder da infância como formador da psiquê humana. Eu acredito, não tanto quanto os psicanalistas, mas bem mais que os católicos fundamentalistas. Por isso, quando era pequeno, muito da moral que me moldou, veio dos contos de fadas, das fábulas e, principalmente, daquelas historinhas-lendas-quase-urbanas. Sabe aquela do mendigo que pede esmola no meio da estrada para um viajante e, depois, descobrimos que era Jesus disfarçado? E que tudo não passava de um teste de caráter em que alguns eram aprovados, mas a maioria se ferrava de biroquinha, por conta da aparência desleixada do filho do criador?
Esta historieta tem guiado meu viver, só que, no meu caso, eu não sou o viajante. Também estou mais para capetão do que para Jesus. Mas o esquema é o mesmo, dou muita corda, finjo de bobo e deixo as pessoas se enrolarem. Às vezes, libero tanta corda, que o(a) gaiato(a) pensa até que é livre e sai para passear pelo mundo, porém, justo quando está prestes a tomar um dry martini na Riviera, apareço e puxo tudo de novo e trago a vítima para bem perto, só para saborear sua cabeça ainda viva.
Outro dia mesmo, minha ex-coordenadora da minha ex-escola do inferno, entrou na sala dos professores e apresentou todos os professores para um casal que queria colocar seu pequeno rebento naquela sucursal de Leviatã. Apresentou todos os professores e me pulou, ignorando minha existência. Coitadinha, pobre criatura sem consistência. Eu, que já desconfiava que a única sigla em educação que a pequena miss balzac sunshine conhecia era E.V.A., tive certeza que nem um pouquinho de bom senso o ser possuia. E fiquei pensando, mocinha tão bonitinha por que será que ainda não arrumou ninguém? E lembrei daquele ditado italiano: por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento. E fiquei rindo por dentro. Ela me ignorando e eu pensando nas suas entranhas recheadas de Rhizopus stolonifer.
Eu sou mau e nenhuma religião me acalma. Não sou daqueles que frequentam missa ou culto, para ver se conseguem manter sob controle, o rio de lava e destruição que insiste em se formar no meio do meu coração das trevas. Eu mato formiguinhas, a cada quinze dias, na pia do meu banheiro. Eu sou uma pessoa má. Eu e o Padre Marcelo. A diferença é que o coitado vai acordar no inferno e pensar que chegou ao paraíso bem num dia em que quebrou o ar condicionado. Eu não, eu sei o que me espera como consequência de meus atos.
Não se iludam com minha aparente bondade, paciência e compreensão com as vicissitudes alheias. Eu sou uma pessoa má. E cobrarei, no momento oportuno, cada nano-gota da esmolinha que um dia me recusaram à beira do caminho.

Ninguém Deveria Morrer em Dezembro

Domingo de manhã, não saio para caçar rã. Mas vamos para Araraquara visitar a irmã da Claudia. Vamos de carro novo, com ar e som com mp3, por isso, dá para fazer aquelas saladinhas musicais em que a surpresa e o ecletismo sempre vencem. Cai nos meus ouvidos os seres rastejantes dos tapetes, the carpet crawlers. Uma antiga música do Genesis ainda com Gabriel nos vocais. Sempre que eu escuto as músicas deste cd, me lembro do Jorge, antigo companheiro das primeiras performances, dos homens-pizza. Jorge é um fiel fã do The lamb Lies down on Broadway. Com o consentimento familiar, aumento o volume e canto junto o refrão: We've got to get in to get out. Daí é aquela coisa de sempre, fico emocionado, começo a chorar. As lágrimas escorrem sob os óculos escuros. O Nicolau se interessa pela música, realmente o refrão é grudento, pede para colocar de novo. Atendo seu pedido e começamos a escutá-la novamente. Ele me pergunta o que quer dizer e eu digo: nós temos que entrar para sair. Tento achar uma profundidade maior para aquelas palavras na minha cabeça, poupando os filhos de maiores mergulhos de significados. Ainda choro, mas não sei mais porque. Eu choro porque músicas me emocionam ao ponto disto. Ainda mais se são canções perdidas no tempo que algum buraco de minhoca do Hawkings trouxe à tona. Quase atinjo o sublime, o êxtase barroco da Santa Teresa: música de um tempo que se foi, melodia bonita, família reunida no carro novo com ar, filhos interessados no meu antigo gosto musical. Tudo perfeito.

Nicolau tem uma ideia, depois de escutar a profundidade traduzida que tem que entrar para sair. Aproveitando-se da fase escatológica de seus 10 anos, deduz que o refrão refere-se ao seu cocô, afinal ele também tem que entrar para sair. Os outros acham graça, acho que até eu acho graça. Agora, o ar começa a secar minhas lágrimas já que as entradas e saídas do sistema digestório deram um outro tipo de profundidade abissal às palavras da música. Aquele momento de lembranças já ficou para trás, o buraco de minhoca já se fechou. Agora, talvez, o que eu tenha, seja apenas um novo momento, uma nova lembrança sendo formada.

Depois, inclusive depois da volta da viagem, por volta das 11 da noite, abro o facebook para dar aquela olhadinha final, antes de dormir. Vejo que um fotógrafo conhecido morreu em um acidente na madrugada anterior. Estava prestes a ir dormir quando acordo e começo tudo novamente. Lembranças de outras pessoas que se foram, do acidente na mesma estrada que passei de manhã, chorando e escutando a voz rouca do Gabriel. Buracos de minhocas ligando distâncias impossíveis. As pessoas morrem mais no final do ano ou estou começando a achar padrões no caos? Deveria ser proibido morrer no mês do Natal. Mas a vida não é assim, as coisas não acontecem assim. Só me resta ficar atento aos buracos de minhoca, aos seres rastejantes nos tapetes, ligando distâncias e tempos impossíveis, feito donnies darkos do cotidiano, prestando atenção nas mensagens transmitidas pelos portais do tempo-espaço que se abrem e se fecham, rapidamente, transformando o presente em passado e, talvez, também em futuro.

26.6.10

As prometidas fotos dos Toys que ganhei



Prezadas Criaturinhas, obrigado a todos pelos votos! Foram mais de 400! Primeiro lugar absoluto. Aqui estão as pedidas e prometidas fotos dos toys que eu ganhei. Thanks de monte!
Cleido Vasconcelos
ps. aproveitem e leiam algumas velhas crônicas enquanto eu nao escrevo nada novo!


22.12.09

Caos-Natal

Sou triste, quase um bicho triste e brilhas mesmo assim*.

Esse, eu acho, será o Natal que vou passar mais duro. Espero que o mais sem dinheiro que eu atinja, seja isso. Porque ainda assim, o básico classe média estará lá, na mesa, na árvore, no shopping e nos amigos secretos. Esse, talvez seja o final de ano mais desconfortável que eu passarei em anos. O final da escola de meus filhos foi de um jeito péssimo, por conta de um maior desconto de mensalidades. Tomei contato, de forma chocante, com a lógica perversa das mantenedoras e seus limites máximos de desconto. Então, que pelo menos eu tenha saído do barco, um pouco antes dela se afundar nas águas turvas dos esgotos das construções vizinhas. A mágoa é uma energia.
Terminei minha faculdade de arte e, na monografia, apareceu uma tonta, na banca, que queria mostrar serviço em cima de mim. Sabe aquelas moças novas, formadas em design, com carranca arrogante a esconder uma falta de conteúdo abaixo da epiderme? Não bastasse isso e meu amigo (sob reavaliação) perde os colhões e não me defende. Não dou mais conta, tenho 50 anos e o mundo me cansou um pouco nesse final. Enjoei de servir de alvo para formigas amedrontadas com minha sombra e pela sombra junguiana delas mesmas.
É natal. Mas até o panetone trufado da Cacau Show (coisa de pobre, eu sei) eu não consegui comprar porque acabou. Entrei de férias, hoje. Depois de semanas de múltiplas coisas para fazer, era para bater aquele vazio existencial, que aparece sempre depois que você passa muito tempo na correria. Ele veio, na verdade, como um copo vazio. E é sempre bom lembrar que um copo vazio pode estar cheio de ar(es da mediocridade). Putz, é natal e eu não tô no clima. Só não saio por aí com uma navalha, porque deve dar um trabalho imenso se livrar dos corpos.
Apesar disso, minha árvore ficou bela, com tsurus a voar, gentilmente cedidos pela Rita. Apesar disso tudo, tenho vontade de comer rabanadas e sair pro shopping para olhar aquilo que poderia ter, se isso resolvesse meus problemas.
É natal e o caos reina! O Nicolau, muito sensível, capta esse espírito no ar, de caos-natal e se transforma no menino-capeta. Graças aos céus, num momento de maturidade suprema, conseguimos perceber que é isso que acontece e revertemos a situação, explicando tudo para ele. Ele fica triste, nós estamos tristes, mas a brisa fresca das manhãs volta a ser uma promessa.
É um estranho natal crepuscular, onde eles sabem que papai Noel não existe, mas ainda não querem arriscar. Óbvio que a exceção é o Joca, para quem não só o Noel existe como também o coelho da páscoa, o homem aranha, os hobitts e a Liga da Justiça. A razão invade o domínio da infância e ocupa o lugar das lendas, dos mitos e das luzes. É o fim da infância. Mesmo assim, o Nicolau me diz que vai dormir no sofá, perto da árvore, para surpreender o bom velhinho. Ele ainda tem dúvidas. E eu percebo que eu também tenho, e que elas caem como açúcar fino de confeiteiro sobre as rabanadas que insistem em povoar e a se intrometer nas minhas desesperanças (quase) certas de que tudo vai melhorar.

Eu sou um homem tão sozinho, mas brilhas no que sou. E o meu caminho e o seu caminho, é um nem vais nem vou*.
*Caetano Veloso.

I don't see dead people

Ao contrário do menino do Sexto Sentido, eu não vejo pessoas mortas e nem escuto. Meu pai foi o único que vi. Demorei muito para voltar a escutar a Elis, depois que ela morreu. Com a Cássia Eller, ainda nem voltei. Mamonas então, nem pensar. Não consigo, fico pensando que morreram e esqueço a música. Dead people que já conheci mortas, como Billie Holiday, não tenho nenhum problema. O negócio é presenciar a passagem delas, geralmente no auge da carreira, e ficar conectando possibilidades futuras, que foram interrompidas. Meus CDs do Michael só não terão destino semelhante, porque os filhos descobriram o cantor, junto com sua morte.
Esta semana, a Leila Lopes morreu. Suicídios em geral são mais chocantes. Me choca profundamente saber que alguém acabou com a própria vida, vida essa tão cara para nós, os não suicidas. Mas, o mais chocante nessa história é a exposição. Fico pensando nela, nos filmes pornôs que fez, que eu não vi, e agora nem vou ver. Porque não vejo pessoas mortas.
Fico pensando que deve ter aumentado a procura pelos vídeos. Mas, imagino-a lá, exposta no que mais íntimo podemos fazer, mesmo que em encenação. Suas partes, nunca iluminadas pelo sol, expostas à luz forte dos refletores. O que é ter uma alma atormentada perto disso? Porque só as almas torturadas podem se matar, para aliviar a dor.
Ela lá na tela, simulando prazeres imensuráveis, invadida em suas reentrâncias por protuberâncias orgânicas e lentes fálicas. Corpo cuidado, pele cuidada, perfeito. Na tela, a imagem; na terra, o corpo que eu imagino, agora, em decomposição. Mais pós-moderno, impossível. Imagina viva de uma exposição íntima. Duas verdades. São tantas as verdades. Simulacros. Bela Leila gemendo de prazer na tela e de dor psicológica na cama, prestes a morrer, como os ratos. Todo mundo vendo. Menos eu, porque não vejo pessoas mortas. Mas imagino.

3.10.09

Existe mais de um de tudo

Segunda feira, seis e quarenta, eu levanto, a Claudia já arruma as roupas das crianças. Café, pão, leite com toddy, estamos com um carro só, porque bateram no Átila, o uno. Seis e cinqüenta, eu levo a Claudia para a escola dela, perto de casa. Volto, acabo de acordar os retardatários, mando escovar dentes, ajudo a colocar um tênis, se for o caso e se a tarefa estiver muito difícil. Levo todos para a escola. Deixo o carro na escola da Claudia e vou caminhar.
Depois da caminhada, coloco umas roupas na máquina e escolho o sabão. Humm, acho que vou experimentar o Ace líquido azul e misturar com um pouco de Vanish branco. Coloco a roupa e saio correndo de perto da máquina porque, vocês sabem, tenho uma atração irresistível em ficar observando roupas rodando no meio da água e do sabão.
Arrumo as camas, passo uma vassoura de espuma, úmida, pela casa. Passo bem porcamente, como se eu fosse uma daquelas empregadas rápidas e ineficazes que somem, assim que terminam o serviço do dia.
No meio de tudo isso, dou umas tuitadas, checo meus emails e jogo conversa fora, rapidamente, no MSN, enquanto estendo as roupas no varal. Não tem jeito, não existe sabão em pó que tire encardido de meia branca. Tem que esfregar com uma escovinha daquelas para unha, sabem? E só depois, deixar de molho e depois lavar.
O almoço vai ser meio fácil, frango à passarinho, arroz, salada (acabei esquecendo de fazer), salsicha, purê de batata yoki e suco uval. Quase tudo de ontem.
Onze e quarenta, a Claudia chega, nós almoçamos, excepcionalmente sozinhos, e eu vou buscar as crianças mais cedo, na escola, por conta de estarmos com um carro só.
Meio dia e cinco, crianças em casa, lavar as mãos, almoçar. Meio dia e meia, saímos todos para levar a Claudia na outra escola dela. Ela fica lá, levo o Nico e a Sofia para a casa da minha mãe e parto com o Joca para a terapia dele.
Deixo o filho lá e vou passear na galeria do Marcelo, conversar um pouco, porque é ali perto. Depois de uma hora, pego o Joca e voltamos para a casa da minha mãe.
Chegamos lá e a Claudia, que terminou suas aulas, está no Cenourão, com o resto da prole, fazendo as compras de frutas da semana. Tudo está (quase) feito. Principalmente se desconsiderarmos o fato de que a maior parte das lições de casa ainda nem estão perto do seu final.
Nós tínhamos um plano secreto para esse dia, eu e a Claudia. Olhamos para o relógio e percebemos que ainda dá tempo. Apressamos as coisas, crianças são colocadas para correr e pegar cadernos e mochilas incompletas. Partimos todos em direção ao lar. Deixamos frutas e legumes na geladeira, pegamos alguns elma chips e, finalmente, revelamos para a galera, nosso plano secreto: Vamos para o cinema!
Todo mundo se anima, a velocidade volta a ser uma constante em nossos corpos.Lá vamos nós pro UCI, a pé, porque é perto. Balde de litro de pepsi na mão e o filme, prestes a começar.
Fomos ver a nova animação da pixar, Up – Altas Aventuras. É sobre crianças, velhinhos, cachorros, amizade, amor e uma casa antiga voadora. Não sei se é por conta da música, não sei se é pelo clima nostálgico do início, mas me lembrei do Fellini. O tema musical é digno de um Nino Rota. Algo também cheira à Cinema Paradiso. Mastigo alguns cheetos, engulo um pouco de Pepsi. Começa uma sequência sem diálogos, só música e imagem, contando toda vida do casal, até à meia idade.
Sim, sim, eu choro. Choro muito, porque nunca consigo resistir a uma boa combinação de imagens-passar do tempo e uma melodia de piano com pinta de Morricone. Vocês pensam que estou brincando, mas eu choro mesmo! Sei que na outra ponta (as crianças estão entre nós) a Claudia também chora copiosamente.
O casal do filme tem um sonho. Juntam dinheiro numa vasilha de vidro e, constantemente, usam o dinheiro guardado para consertos, imprevistos, e têm que começar tudo de novo. Lembro de minhas vendas no quantopagas, do sonho classe média-ladeira-abaixo de comprar um sofá bem gostoso com chaise para ver seriados na TV. Mas não é que vem um caminhão, sem seguro, e arregaça com a lateral do Átila? Lá se foi metade do cofrinho para a franquia! Mas não é que o cano da máquina de lavar louças está fazendo chover na cozinha do vizinho de baixo? E dá-lhe cofrinho. Igual ao filme.
A sensação de identificação traz conforto. Meus problemas únicos, pessoais e intransferíveis, são de todo mundo. É como se estivesse conectado com o resto da humanidade, em tudo que faço, menos em ir ao banheiro. Único e igual a todos, ao mesmo tempo.
Existe mais de um de tudo. Seu dia especial, seu carro batido, seu vazamento no vizinho. E seu pequeno sonho que enche e esvazia, repetidas vezes, também não é só seu. Está tudo lá no filme, está tudo aqui dentro de nós.

Natal em Setembro

Ontem, quase no fim de setembro, apareço no Carrefour para comprar batata palha para um strogonoff e vejo, formando pilhas entre os corredores principais do supermercado, centenas de panetones, dos mais diversos sabores e marcas. Quase levo um choque. Primeiro, fico meio desmagnetizado e penso que são sobras da Páscoa. Depois, lembro que na Páscoa, são as colombas que habitam as prateleiras. Digo, Meu Deus, o Natal está aí de novo! Quase deprimo com a rapidez com que o tempo passa. Só não deprimo porque, por outro lado, adoro Natal.
Supermercados, com iPod, são momentos maravilhosos para se pensar na existência humana e na infinidade do cosmos. Assim, eu começo a fazer isso. Será que o mundo voa mais rápido, hoje em dia? Será mesmo que o tempo acelera em direção ao futuro?
No começo, o tempo era cíclico. O homem olhava a natureza, as estações, o plantar e o colher, o dia e a noite, o nascimento e a morte e, através disso tudo, percebia o fluir do ir e vir de Cronos. As religiões pagãs cultuavam esse aspecto cíclico do tempo, das sagrações de primaveras, sacrifícios por boas colheitas e das danças circulares ao redor do fogo. Por mais incrível que pareça, foi o cristianismo que iniciou o tempo histórico. O tempo em que o passado (Gêneses) era causa do presente (Chegada de Cristo) que, por sua vez, era o prenúncio do futuro (Juízo Final). É com o cristianismo que o tempo perde sua ligação com a natureza e se torna tempo-história do homem.
Eu já tinha dito que supermercados, com iPod, são excelentes lugares para se viajar. Por isso, volto a pensar nos panetones em setembro, nos ovos de chocolate logo depois do carnaval, na globeleza que samba e amamenta o pequeno ano que acabou de nascer. E em tudo mais que, durante o ano, mal acaba de ser e já era.
Penso que o que acelera o tempo, hoje em dia, são todas as datas que comemoramos, que o comércio insiste em interligar, abreviando os espaços entre elas. Aproximando-as, através da oferta antecipada de seus produtos típicos.
Bem-vindos então, ao neopaganismo! Bem-vindos à nova era do tempo cíclico. Tempo de plantar e de colher pães doces de frutas cristalizadas, temporões e anunciantes que são, já agora em setembro, da nova safra do Natal e do eterno ir e vir das estações. Agora, finalmente, patrocinadas.

17.9.09

Olha só! até poesia minha volta ganhou!

Obrigado, todo mundo que me escreveu, pela volta do CDicas! Ganhei uma poesia, que pode ser conferida clicando no título da postagem. Não postei aqui diretamente, porque assim vocês vão até o blog de minha amiga Sandra, ler os textos dela também.

14.9.09

Me Diga num Domingo

Quando duas coisas novas acontecem em sua vida, ao mesmo tempo, elas fatalmente ficarão linkadas para todo o sempre. Foi assim, com a receita de pão preto alemão, amoras, creme de leite batido e pedaços de chocolate meio amargo, que experimentei pela primeira vez, enquanto meu pai agonizava na UTI do hospital, também pela primeira vez. Essas memórias são grudadas para sempre pela cola de sensações e emoções. Músicas também fazem muito isso, grudam nos momentos e os ajudam a ficarem, para sempre, em nossas cabeças.
Há vinte anos, entramos em uma loja de departamentos em Copenhague, eu e a Mazé, passeando pela cidade da maneira mais econômica possível. Era uma loja bem no estilo da finada Mesbla. Era um verão da moda acid house, das cores cítricas e das carinhas do Smile.
Nunca tinha estado em Copenhague, nunca tinha estado naquela loja. Quando desço as escadas rolantes, escuto “Tell me on a Sunday” saindo pelos alto-falantes da loja. Olho para baixo e vejo um mar de roupinhas dobradas, de moletons cítricos deitados em seus suportes, dormindo, esperando para serem experimentados, comprados e levados para longe, por alguém.
Todas aquelas cores fluorescentes, lavadas, descansando até serem ativadas em uma balada noturna qualquer. E a voz feminina cantando a música de Andrew Lloyd Webber que nunca tinha ouvido antes, também. Tudo junto forma um clipe em minha cabeça que quase choro.
Memórias sendo formadas no ato, pela emoção banal de juntar um lugar de compras, uma música e uma visão-descida-travelling pela escada a olhar a paisagem de cores fortes, porém lavadas, como nos antigos murais que perderam o viço pela poeira dos tempos.
O que tiver que me dizer, me diga num domingo, como diz a letra da música. Num domingo qualquer, como este em que consegui voltar a escrever.

17.6.08

A Matemática do Nicolau, parte II


Lição de casa de matemática, começam as noções de divisão. Sinto que, como diria o alter ego do Roger Waters no The Wall, uma crise se aproxima rapidamente. Vou lá, ajudar, já meio desanimado e descrente dos resultados. Nicolau lê o problema para mim: Dona Maria usou 3 pacotes de macarrão para fazer macarronada para 15 pessoas. Quantos pacotes ela precisaria para fazer macarronada para 5 pessoas?
Começo a armar um esquema mental de como explicar essa noção para ele, ao mesmo tempo em que ele termina de ler a questão.
Para minha surpresa, ele acaba de ler e diz: Já sei! É fácil, um pacote de macarrão, só! Maravilhado com tanta rapidez, vendo desmororar todo meu preconceito sobre a capacidade dos filhos de entender conceitos abstratos disfarçados de espaguete, quase vou às lágrimas de emoção. Daí vem a explicação tão maravilhosa quanto deve ser a macarronada da Dona Maria. É fácil, papai. Aqui em casa nós somos em cinco e você usa só um pacote quando faz macarronada!

a outra matematica dele pode ser vista em http://cdicas.blogspot.com/2007/04/amatemtica-do-nicolau.html

De repente, a Felicidade pode vir na Segunda!

Depois de um final de semana extendido pelo feriado, desacelerado por gripes, tosses e uma ligeira queda de temperatura, aí vem a segunda! A Claudia tem lá suas 11 aulas no dia, as crianças demoram mais para engatar uma primeira e ir para a escola e eu tenho que voltar a caminhar no parque e pensar no que vou fazer de almoço. Ou seja, tudo caminha para ser a velha segundona de sempre.
Não tem nada pior do que um feriado prolongado que acaba. Todas aquelas micro-felicidades que ficaram para trás, todo filme de dvd, dormida no sofá no caldeirão do huck, passeio leve no super para comprar chocolate belga barato. Visita na casa da avó que faz pão de queijo. Todo cinema que prometemos para os filhos e não fomos.
Minha mente começa a contar quantos dias faltam para o próximo. Não que a minha segunda seja muito diferente de um feriado, tudo é apenas uma questão psicológica e virtual. O que volta a acontecer é que as crianças vão para a escola e eu tenho que aproveitar para fazer um monte de atividades que não consigo fazer com eles por perto. E acabo não fazendo quase nada, nem com eles, nem sem eles. A Claudia fica longe, depois eles ficam perto (demais) e querem assistência técnica especializada o tempo todo.
E, na segunda, todo mundo volta a almoçar correndo porque tem que voltar para as aulas, para a lição, para a ilustração que tenho que entregar ontem e ainda dar uma geral na casa e na cozinha.
De repente, na hora do almoço, chega a Claudia. Pega o telefone e liga para a escola dela. Algo começa a riscar meu crânio, por dentro, até a primeira fagulha de esperança acender meu cérebro. Ela avisa a escola que vai abonar porque está sem voz para dar aulas. A primeira coisa que penso é que para se ver algum filme, não se precisa falar nada.
Olhos se cruzam, pensamentos se formam, estratégias se solificam em segundos. Confiro a programação e tem uma sessão daqui extamente uma hora. Dá tempo deles fazerem a lição com o excepcional auxílio luxuoso do pai e da mãe (at same time).
A segunda começa a se transformar. É como se fosse o mesmo dia ainda, mas agora sob nova direção e com um pouquinho de gloss nos lábios. Tudo corre bem, a lição está terminando, ninguém teve surto (nem os pais, nem os filhos).
Saímos todos à pé para o filme. Compramos aquele combo escandalosamente caro de pipocas e coca-cola e entramos. Nosso herói está lá, passados mais de 15 anos e ele ainda está lá com seu chapéu e chicote. Ele está mais velho mas, se fosse só ele, ainda a gente dava um jeito. Todos nós envelhecemos. A última vez que o vi em ação nos cinemas eu nem tinha minha própria família ainda. Mas ele continua lá, a magia continua lá também. Quando o tema da série toca pela primeira vez, temos certeza que tudo mudou, mas que continua a mesma coisa, na sua essência.
Meus filhos torcem, riem, sofrem e comem pipoca com coca-cola. Eu e a Claudia, que somos mais tontos, até choramos no final. Indiana apresentando seu mundo ao seu filho. Eu, apresentando meu herói, aos meus. Pai e filhos, lá e cá. Disfarçando as lágrimas, eu chego à conclusão que esse é o verdadeiro amor incondicional: o amor paternal. Afinal, que outro tipo de amor poderia me fazer escutar Harrison Ford dublado na telona do cinema?

22.12.07

Extermínio e paranóia antes do final (de ano)

Saio da locadora com três filmes: Duro de Matar 4.0, Paranóia, Extermínio 2. Nada de festival francês, nada de longas pausas e nem paisagens da Toscana. Eu quero é sangue! Tudo isso, talvez, seja reflexo da notícia que minhas aulas foram ceifadas pela quase metade. Que no final de janeiro, me espera uma viagem pedagógica ao inferno. Não, não, corrigindo, viagem ao inferno, pelo que vi no Constantine, deve ser muito mais interessante do que o que me aguarda o final das férias. É, agora tenho certeza, isso tudo ajudou na configuração de minha trinca de filmes no dia da oferta pague 2, leve 3. Não resta mais nenhuma dúvida: sou eu, mostrando para mim, o furor-mix de ódio, sangue e tristeza que insiste em brigar com meu espírito natalino tradicional. Depois da locadora, vou com a família comer alguma coisa fora. Chegamos ao restaurante (quase) vazio e a única outra mesa com pessoas no espaço fechado, está ocupado por um conhecido velho psiquiatra alternativo da cidade e uma mulher. Os dois conversam e fumam. FUMAM no restaurante fechado. O primeiro filme que me vem a cabeça, da minha trinca, é o extermínio. Lembro daquela penca de zumbis ligeirinhos voando à dentadas sobre os pobres normais e quase fico calmo. Meu humor está péssimo. A mulher fala alto e muito. Ela fala enquanto solta a fumaça e vejo aquela boca-matraca abrindo e fechando entremeada por uma cortina de fumaça. Não sei se por força do hábito, se por achar ela chata também ou se para dar corda para o ego dela fazer lacinhos, o psi só fica na escuta. Naquela serena e silenciosa escuta de quem, na melhor das hipóteses, vai esperar aquela falação toda acabar para eles... ó!!!! (se é que vocês me entendem). Ela, parece que qué, qué, qué, muito abrir sua psiquê para ele. Pelo menos é isso que eu penso, naquela hora, soterrado pelo meu imenso mau humor. Além de tudo, a comida demora muito para chegar. As crianças, sabendo instintivamente do meu estado mental, reduzem o nível de brincadeiras e correrias ao essencial. Sabem o risco de lesões psico-corporais que elas correm, nessas horas, e por isso, brincam sossegadas com alguns porta-copos. A louca está lá, fumando, falando. O trata-louco está lá, fumando, escutando. Quando será que vai vir minha comida (ou a deles)? Quando penso que nada, mas nada mesmo, poderá melhorar meu emocional (como diriam os palestrantes de auto-ajuda), a matraca loura, vestida em uma camisa branca com rendas e colares de pérolas, muitas pulseiras e uma cara de advogada de meia idade (ou de vendedora senior do mercado de imóveis), se levanta, reclamando de uma dor em certa parte de sua anatomia, pára de costas para o psicoterapeuta sentado e pega a mão dele e passa nos supostos carocinhos que ela tem na bunda, para ele sentir. Existe descrença no novo ano que possa sobreviver a uma cena dessa? Sinto dentro de meu eu, uma fagulha crescer em forma de alegria simples e súbita. Tudo que era raiva, rancor e sangue se transforma em ... raiva, rancor e um novo sabor frutas vermelhas. Olho para a Claudia e damos uma risadinha diante de tão explícita cena de psiquê molhadinha. Agora, tudo se desfaz, e se recompõe. Meu velho estado de espírito natalino volta a predominar. O Extermínio 2 da raça humana já não é mais prioridade em meu ser. Posso seguir em paz, a travessia que o futuro próximo me indica. Obrigado Matraca!

6.12.07

Aí vem o Natal!

Se eu fosse bem rico, bilionário, meu passatempo predileto seria test-drive de pessoas de nível. Meu prazer, nada secreto, seria testar pessoas de renomada e ilibada reputação intelectual e/ou moral e levá-las ao limite. Para a Fernanda Montenegro, ofereceria um papel num comercial de Corega, em que ela exaltasse os poderes colantes milagrosos do pó de dentadura. Primeiro, dava uns 200 mil reais de cachê, só para testar e, conforme o necessário, iria aumentando o valor até dobrar a grande dama do teatro/cinema/televisão e, quem sabe, pó para dentadura, brasileira. Depois, ofereceria um cargo de ministro da cultura no governo do PT, para o Diogo Mainardi. Tudo pago, casa em Veneza, prometeria até passar para DVD, e lançar nas americanas.com, seu único filme, não lembro o nome. Ainda bem que não tenho dinheiro!
Tive esse desejo vendo o Ed Motta no comercial de natal do shopping. Uma vez, li uma entrevista do cantor/conhecedor de vinhos/gourmet/defensor do slow food, em que ele dizia que não aprendeu nada na escola, por isso parou de frequentá-la. Só esqueceu de dizer que se não fosse ela, a escola, não iria nem conseguir ler os rótulos dos vinhos que bebe. Ele é contra fast food, instrumentos eletronicos com chips, gosta de HQ e acha que é fino. Daí, vocês podem imaginar minha cara de surpresa ao vê-lo no comercial de natal de uma rede de shoppings, cantando, segurando uma estrelinha na mão, sorrindo sem graça e fazendo láláláralálá. Não tenho nada contra propagandas de natal e shoppings, aliás, os outros artistas estão completamente adequados ao papel que lhe deram no comercial. Mas o Ed? Justo ele que é chique, usa boina e colete?
Outro dia fiz minha primeira incursão (do ano) ao mundo natalino dos shoppings, com toda a família. Primeiro, passamos pelas lojas de brinquedo para ver a nave starwars que o Nico quer, ainda não sabe direito, do papai noel. O shopping estava bem cheio, coisas da classe média profissional ávida por licores de amarula. Vou para um lado, longe do papai noel, porque o Joca não gosta de “adultos fantasiados”. Sinceramente, o que mais me diverte nesses dias, é ver o mar de mulheres com vestidos, batas e blusas, com estampados coloridos e geometricos, todos iguais, variações de triângulos daqui, uma corzinha um pouco diferente dali, mas todos iguais que a moda deu para elas. Gosto de reparar na cara de única que cada uma consegue fazer, mesmo vestindo uma coisa que tem de penca a sua volta. Tem umas que fizeram um curso de chique presencial e amarram o cabelo com luzes num rabo de cavalo alto, um brincão de argola grosso e ouro branco, uma bolsona do lado. Aliás, a bolsona prateada (ou dourada) é outro item obrigatório para compor o look “o melhor dos iguais” atual das mulheres.
Passo em frente da Kopenhagen e brinco comigo mesmo da famigerada brincadeira de “um dia”. Um dia eu ainda compro aquele panetone, aquela trufona, aquela caixa de bombons, um dia!
Adoro essa época! E não há conta para pagar, nota para entregar, prova por fazer, que estrague essa alegria atávica que sinto no ar, no meu ar ao redor de mim, que faz meu espírito piscar, acender e apagar, alternando esperança e realidade, futuro e passado, fim e começo.


feliz natal!

29.11.07

Inúmeras maneiras de se matar um Inseto

Só existe um animal que eu mato conscientemente e com prazer, os pernilongos. O resto tento evitar, quando possível. Lógico que uma barata, frente a frente comigo, no meio do meu lar, terá uma morte rápida, certa, digna e com pouco sofrimento. Mas, nesse caso, sou eu ou ela. Isso também é válido para aranhas. Só mato em caso de extrema necessidade.
No passado fui mais sádico. Na infância, fazia uma mistura de água e terra e colocava as saúvas para afundarem igual às areias movediças dos filmes de selva e mistério. Na adolescência e também quando era um jovem adulto, tinha um prazer quase sensual de afogar formiguinhas em pias de cozinhas e banheiros. Vinha, igual a um deus-inca-tsunami e mandava todas para o ralo. Sempre deixava algum sobrevivente para que ele pudesse contar para o resto do formigueiro sobre o terrível deus Tsu.
Pelo menos, os quatro anos de psicoterapia serviram para superar essa fase de destruição sádica de himenópteros associado ao delírio do uso indiscriminado de meu poder divino. Na verdade, ainda acho que tenho esse poder, porém, a psicanálise me mostrou que não devo usá-lo contra as pobres e indefesas formigas.
Hoje, gasto parte do meu tempo-para-gastar-com-coisas-que servem-para-alguma-coisa aperfeiçoando técnicas para exterminar os famigerados pernilongos. Eu, particularmente, gosto de matar aqueles que passaram a noite chupando o meu sangue ou o de algum familiar e estão lá, gordos, lentos, como nós ficamos após uma feijoada e três pedaços de torta de mousse de limão num domingo quente de verão. Gosto de projetar a trajetória do vôo lerdo deles, usar meu cerebelo para calcular onde eles vão estar no instante seguinte e plaft! Depois é só lavar a mão com sabonete.
Com o tempo, fui me especializando. Posso ficar parado esperando o besta se aproximar e vupt, catá-lo com a mão em um movimento rápido derivado dos antigos filmes de kung-fu. Se ele está pousado em alguma parede, o ideal é bater as palmas das mãos sobre ele que, sai voando no primeiro deslocamento de ar e morre prensado entre os dedos. Chega a ser triste vê-los cairem nesse golpe sujo das mãos.
Os Aedes aegypti são um caso a parte, voam ligeiros e fazem curvas aéreas irregulares que tornam difíceis as previsões cerebelares. Eles nunca estão onde você pensa que eles estarão no momento seguinte. Também possuem uma personalidade insistente, possuem uma auto-estima elevadíssima, têm certeza que vão conseguir chupar seu sangue e não desistem facilmente. Atacam enlouquecidamente à luz do dia e, acho, já lutaram no Vietnã e na guerra da Coréia. Eu diria que a morte de um tigradinho pode valer muitos pontos no campeonato nacional de caça aos seis patas. E nem vou entrar no mérito da questão epidêmica causada pelos capetinhas.
Às vezes, sou atormentado por dúvidas existenciais. Matar ou não matar seres vivos? Ter prazer em tudo isso, faz de mim um ser menor? Comer uma alface é destruir uma vida? Devo continuar desvirando besouros, que estão de barriga para cima e mexendo as patinhas, quando os encontro pelos caminhos que a vida formou, após um chuva quente de verão?
Sinceramente, não sei a(s) resposta(s) para tudo isso. Sei apenas que existem momentos, em que entendo a complexidade da teia da vida, das gotinhas de orvalho, do equilibrio dinâmico das redes do acaso. Nessas horas, chego a lamentar o prazer que sinto ao subtrair desse universo mais um pequeno inseto sugador de sangue. Olho para as vaquinhas ruminando no campo e penso em um mundo melhor. Penso no pão light, nas verduras, na leveza do corpo filtrado de LDL, no coexistir sustentável com os outros seres vivos que ainda sobrevivem nesse planeta sem muito futuro.
Mas, noutras predominantes e perigosas horas, o que me move é o banho de serotonina que meu cérebro recebe quando esmago uma pernilonga gordinha de sangue ou quando caio de boca na misturinha de carne + rodela de bacon do Macnífico, acompanhado das salgadas, ao excesso, batatas fritas e de uma coca-cola gelada até o inferno.

20.11.07

iGod

Não há nada que me faça deixar de crer, que meu iPod tenha uma consciência cognitiva, que faz com que ele transforme sua função de tocação de músicas aleatórias em algo que tenha um propósito.
Quinta é um daqueles dias que eu caminho de manhã, no curto espaço-tempo entre o depois de entregar os filhos na escola e o começo de mais um dia de aulas. Coloco os fones e clico a função shuffle. Começo minha caminhada com uma Nara Leão, um bom começo, enquanto não pego o ritmo e ainda acho que vou ter um infarto naquela subidinha logo adiante.
Depois da Nara vem a Nora, a Nora Ney cantando algo bem influenciado pelo marido politizado que ela tinha, uma canção que fala sobre um lugar sem tristezas. O acaso me manda, depois, uma Julie London e eu já começo a desconfiar que a plaquinha de memória flash quer me dizer alguma coisa na sequência de vozes femininas que embalam meu caminhar.
Espero a próxima, Katia B., e mais uma cantora despeja seu timbre feminino em meus ouvidos. Annie Haslam (do Renaissance) vem em seguida cantarolando a introdução com aquela voz macia e de agudo delicado, dela.
Agora, já tenho certeza que o chip pensa e coloca ordem no caos. Nada mudará minha idéia que o desgramado não é randômico coisa nenhuma, que ele quer me dizer alguma coisa, assim como dizia alguma coisa o oráculo de Delfos, as entranhas dos animais na antiguidade e as famigeradas cartas do tarot de Marselha.
Aparece um Kraftwerk, elektro kardiogramm, minha tese sobre vozes femininas vai por água abaixo, porém, antes que ela termine de escorrer, presto atenção nas batidas de coração e no compasso dado pela respiração que fazem o ritmo da música. Volto a ter esperanças, penso que essa música foi uma mensagem em meta-linguagem do iPod. Sou eu caminhando escutando alguém andando de bicicleta (na música do kraftwerk).
Começa um canto afro-religioso sobre berimbaus alterados e processados eletronicamente do Ramiro Mussotto. Penso em Deus. Penso que, se eu acredito na cognição-binária-flash do silício nesses poucos minutos de caminhar, é óbvio que milênios de tentativa de entender o aleatório, desde o começo, levou o homem até Deus. Se eu, que sou eu, fico chapado com a mensagem que meu tocador de mp3 manda para mim, por que a humanidade não pode ter certeza que as curvas perfeitas do caramujo nautilus não são obras de uma cognição superior e onipresente?
Depois vem uma do Focus, soft vanilla. Nada a declarar, por enquanto. Mas, em seguida, inicia a Wanessa da Matta cujos primeiros compassos da introdução é uma cópia descarada de, pasmem, uma música do Focus chamada hard vanilla que faz parzinho (no mesmo cd) com aquela que acabou de tocar antes.
O aleatório não existe. Os tambores eletrônicos ainda estão batendo em minhas orelhas. É ele, iGod, mandando mensagens: eu penso e te conto coisas. Você pensa que eu penso e, por isso, pensa no início de tudo, no desespero humano em se deparar com a possibilidade de sua própria história ser somente fruto de uma seleção de acasos sucessivos.


playlist:

Vou por aí – Nara Leão
Mundo diferente – Nora Ney
Wives and lovers – Julie London
Viajei – Katia B
Things I don’t undestand – Renaissance
Elektro kardiogramn – Kraftwerk
Ochossi – Ramiro Mussotto
Hard Vanilla – Focus
Quem irá nos proteger? – Wanessa da Matta

2.9.07

O Homem no Parque

Sete e meia da manhã, deixo os filhos na escola. Estaciono o carro um pouco mais para frente e vou caminhar, trinta minutos, antes de ir às aulas. Vou dar voltas no parque ao lado do ribeirao shopping, aproveitando para escutar os últimos espíritos que capturei da rede, alminhas novas no corpo nano do tocador de mp3.
Não posso sair por aí, porque só tenho meia hora. Tenho que andar em um trajeto circular que não me afaste muito do perto de casa.
O parque tem lago e garça. Tem gente que pesca, deixa um monte de lixo, e tem molecada nadando de vez em quando. Na verdade, nem o aproveito muito. Mas gosto de tê-lo por perto para melhorar a paisagem.
Sete e quarenta e cinco, caminho ao som da Teresa Salgueiro. Geralmente, deixo os controles do ipod no randômico, mas, escutei a primeira e resolvi ficar no clima. Passo perto de um dos portões do parque e tem um carro estacionado na rua. Lá dentro, junto à rampa para skatistas, um homem parado. Alguém na faixa dos trinta e pouco. Ele está de bermuda e olha para o infinito e além. Ao seu lado, no topo da rampa, tem uma gaiola com um passarinho. Fico pensando se ele traz sempre a ave para passear no campo simulado. Ele é quase uma pintura de Magritte. O homem e a gaiola no parque. A situação é quase surrealista, quase uma performance muda.
Também ilumino a cena com uma lanterninha de 1.99 do senhor Freud. O homem com seu passarinho preso. Um homem quieto e calmo, mostrando a imensidão (de possibilidades) do mundo, para o seu piu piu aprisonado. Sei que o velho Sig disse que interpretar é encontrar o sentido oculto de algo, o problema é que, às vezes, nada está oculto. E são nossos olhos, ávidos pelo dia que ainda começa, que revela sentidos escondidos onde nada tem (ou precisa ter) significado.
Continuo a andar, e deixo “O Terapeuta” para trás. Um imenso coral invade minha cabeça. Um coral, daqueles grandes, se encontra num ponto equidistante entre minhas orelhas, espetando meu sistema límbico. Teresa canta com sua voz macia que seus olhos, de chorar, fizeram covas no chão. Que eles choram por ti, e os teus por quem chorarão?
Sete e cinquenta e cinco, eu estou chorando. Olho para trás e vejo o homem da gaiola, lá longe. Olho para baixo e procuro covinhas no chão.


“olhos negros” com teresa salgueiro:
http://umquetenha.blogspot.com/2007/08/teresa-salgueiro-obrigado-2005.html

27.8.07

Quarenta e três minutos de silêncio

Entro na sala de aula do primeiro ano do ensino médio e eles estão todos lá, felizes. Hoje é o dia da explicação do filme Donnie Darko, que eles tinham visto na semana anterior. Vou até a lousa e coloco algumas palavras-chave e espero um pouco de silêncio para começar a falar. Ameaço uma primeira frase que é interrompida por uma gracinha qualquer. Tento de novo. Outra gracinha de um outro alguém. Espero mais um pouco. Nada muda. Encosto na minha mesa e digo: “Pessoal, vamos fazer o seguinte, eu marco cinco minutos no relógio para vocês falarem o quanto quiserem. Vocês gastam o papo, bastante e depois eu explico o que tenho para explicar”.
Todo mundo fica quieto. Ficam incrivelmente quietos. Encostado na mesa, passeio o olhar por eles com uma cara séria e eles permanecem em silêncio absoluto. Não tinha planejado nada disso mas, resolvo ir até o fim. Alguns alunos debruçam sobre as carteiras e dormem. Outros, jogam o jogo da velha, poucos lêem ou estudam alguma coisa. Tudo no mais completo silêncio.
Continuo apoiado na mesa, olhando para os adolescentes em varredura e me sentindo tão desconfortável quanto eles. Tenho certeza que a experiência tem que ser dolorosa tanto para mim, quanto para eles. Não existe aprendizado sem comprometimento, sem perda, sem dor até.
Disfarçadamente, muito disfarçadamente, rearranjo a pulseira do relógio para poder ver as horas sem dar bandeira. Nossa! ainda faltam umas boas dezenas de minutos para isso tudo terminar. Lembro que esqueci de colocar o celular no vibracall, ele NUNCA toca de manhã, mas SE tocar, meu aprendizado do silêncio irá por água a baixo em segundos. Sorrateiramente, mantendo o olhar de varredura aleatória sobre eles, pego minha bolsa, procuro o aparelho e aperto o botão mudo.
Ninguém me encara por muito tempo. Eu também não encaro ninguém por muito tempo. É nessa hora, imerso no nada de ação motora e mental (silêncio?), que descubro que não existe um nada de ação mental e motora. Meus dedos batem no ritmo de uma dança imaginária. É nessa hora que me lembro do John Cage e sua música/intervalo de tempo de 4 minutos e 33 segundos de silêncio, preenchidos por ruídos involuntários e aleatórios da platéia. Nela, não existe ausência de sons, existem as tossidas, os risos nervosos e o virar das páginas das partituras da orquestra.
O silêncio não existe. A minha não-aula não existe. Eu percebo que preencho o espaço com pensamentos e ritmos internos e que os alunos também preenchem a quietude que dei para eles com alguma coisa. Eu sei, agora, que no nosso próximo encontro, falaremos de John Cage, sobre sua música do acaso, que poderá nos proteger, sem andarmos distraídos.
Bate o sinal, pego minha bolsa, meu apagador e giz e saio da sala. No mais completo silêncio.

29.6.07

Coisas que só a Grécia Antiga faz por Você!

Depois de (quase) ter que voltar para a análise, ao descobrir que formigas não comem açúcar. De ter o vitral de meu universo particular e do infinito ao meu redor, estraçalhado por esta pedra destruidora de paradigmas cotidianos. De ter conseguido sobreviver, renovado e reformulado, são os gregos antigos que me surpreendem agora.

Tudo bem, todo mundo fala (inclusive eu) sobre a importância da civilização greco-romana, de seu papel como alicerce, em nossa mundo ocidental. Mas, depois do episódio dos heminópteros e do açúcar, voltei a ter minhas certezas abaladas diante de importantes e pessoais revelações que o estudo dessas antigas culturas me trouxeram.
A primeira delas foi que as colunas gregas não eram esculpidas, eram moldadas em fôrmas, em partes e depois encaixadas, pedaço por pedaço. Reparem nas ruínas do Partenon, olhem bem de perto (na foto da internet ou do livro que você comprou na banca), vocês vão ver, estão lá todas as marcas da montagem.
Alguns vão dizer que isso só reforça o caráter racional da civilização grega antiga, a montagem do pensamento filosófico, moral e político, feita por blocos lógicos que, ao serem perfeitamente encaixados, revelam um todo maior, coerente, em perfeito equilíbrio e harmonia. É, pode até ser, mas foi difícil superar o choque de estar há mais de 2000 anos equivocado sobre um assunto.
E alguém suporta que, quase, todas as esculturas gregas que estão nos museus, não são gregas, mas cópias romanas das originais? Suporta que o famoso discóbolo de Miron no Museu de Roma é uma cópia (e ainda dizem que chinfrim) em mármore, do original grego, perdido, feito em bronze?
Os romanos, como diria o Obelix, eram uns loucos. Acho que foram os primeiros novos-ricos do planeta. Foram com eles que começou o costume de colecionar e comprar obras de arte. Ou cópia das obras mais famosas, se o rico nao tivesse dinheiro suficiente para bancar um original. Além de tudo, eles amavam os gregos. Importavam os artistas, suas obras e, se fosse o caso, melhoravam e adaptavam às suas necessidades. Pareciam o Bill Gates e sua Microsoft, sugando, importando, reciclando apples, icqs e netscapes da vizinhança. Pois é, os romanos, os primeiros norte-americanos do Terra, souberam aprimorar e vender melhor, o produto grego.
Chegou uma hora (no famigerado período helenístico grego) que os escultores já estavam tão entediados de esculpir corpos humanos que começaram a inovar. Queriam que os espectadores vissem o modelo nas mais variadas posições e ângulos. É dessa época o famoso Fauno Barberini, na pose mais arreganhada e gay que eu já vi nessa vida, numa obra de arte. Tão duvidando? Procurem no google imagens e comprovem.
E também vem desse período helênico, a minha revelação mais bombástica. Um exemplo do quanto a cultura de massa deve aos nossos antepassados, formadores da civilização moderninha que frequentamos hoje em dia.
Foram os gregos que inventaram o estilo garota camiseta molhada, que até a semana passada, eu jurava que tinha sido uma invenção do Gugu Liberato. Eles esculpiam algumas deusas, como se o tecido que recobria seu corpo, estivesse molhado e colado nele. Acho que, os colossais 2200 anos que separam as essas esculturas do programa do Gugu, se convertem em centímetros, se usarmos como parâmetro de medida, o que os realizadores (tanto das estátuas, quanto do programa de tv) pretendiam atiçar com esse truque molhado.
Vivendo e aprendendo a viver aprendendo. A vida é isso, como no futebol, uma caixinha de surpresas. E assim, vamos levando, mesmo que tudo que somos hoje, toda nossa história ocidental esteja sustentada por colunas pré-moldadas, dóricas, jônicas ou coríntias, feitas com bloquinhos gigantes de classic-lego.

23.6.07

Meu amigo pedófilo

Existem duas coisas que nunca me interessaram na vida, ser advogado ou ser pedófilo. O resto, de alguma maneira, já passou pela minha cabeça: assassino profissional, cantor de tango, coveiro, artista plástico, caixa de banco, psicoterapeuta, carteiro, médico, confeiteiro e pesquisador.
Quando eu tinha uns nove anos, estava brincando em frente de minha casa com um graveto, quando apareceu um menino loirinho da mesma idade e perguntou o que eu estava fazendo. Com voz de semi-tédio, acostumado a não ser entendido em minhas brincadeiras espaciais por uma cambada de meninos que só sabiam brincar de mocinho e bandido, respondi que estava jogando meu bastão de raios laser. Para a minha surpresa, ele ficou bastante interessado e começamos a brincar juntos. Foi a partir daí que nos tornamos amigos. Descobri que ele gostava de desenhar, fazer HQs, e se interessava muito, assim como eu, pelo espaço sideral e seus habitantes.
Passávamos as tardes pós-escola, no bosque municipal, procurando cipós nas árvores para balançar, cristais de rocha e pequeninos, influenciados pelo “Terra de Gigantes”.
Foi uma infância feliz, não resta a menor dúvida, apesar de ter tido algumas dúvidas, na época em que ela se desenvolvia. Ele é meu amigo desde então. Mas, faz uns bons anos que não falo com ele. No meio do caminho aconteceram coisas, escolhas, jardins da vida que se bifurcaram.
Eu desenhava bem, ele desenhava bem também. Mas a vida dele foi para outro lado. Teve uma época, no auge da juventude, que não sei por que cargas d’água, ele foi embora lá pro sertão do cú do Judas, ganhar dinheiro. Mas, vocês bem sabem né? Nietzche disse isso, se olhares para dentro do abismo, o abismo olhará para dentro de ti. E o abismo olhou feio. E escavou sua alma em busca das cavernas-irmãs repletas dos desejos-esmeraldas obscuros, brutos e sugadores de luz, típicos das cavernas da psiquê humana.
Vocês podem imaginar o buraco que a vida real e o universo material podem causar numa alma sensível, despreparada para ser sensível e despreparada?
No mesmo ano que eu casei, ele também se casou. Eu convidei e ele não foi, ele convidou e eu não fui. Já nesse tempo, não havia mais que três frases entre nós.
Uma vez fiquei chocado quando vi uma reportagem sobre um cara que, literalmente, comia criancinhas, sugava o sangue delas depois de comê-las no outro sentido do verbo. Fiquei triste e chocado, imaginando um cara lá longe, que não conheço, com uma fome, um desejo, em uma espécie tão específica (as criancinhas mortas) e que, além do mais, incontrolavelmente tomava conta dele, ao ponto de ter que continuar a fazer o que fazia, para alimentar o brilho obscuro de seu diamante louco. Ó jornada triste através das cavernas da mente humana!
Outro dia, me disseram, e depois eu confirmei na internet, que meu amigo está foragido da cidade dele, acusado de pedofilia. Várias denúncias, fotos explícitas achadas por um funcionário, no computador. O caso clássico de quem tem uma fome muito específica e sabe que a comida que come, gera culpa, dor e arrependimento. Até, numa interpretação clássica de almanaque fontoura, ser descoberto por alguém e acabar com tudo aquilo.
Deixar as fotos no computador da loja? O que mais isso poderia significar?
Não acho que ele foi sempre assim. Acho que o abismo olhou para dentro dele e pinçou algumas dark-gemas, trazendo-as para a tona. Estava separado e morava sozinho. Ele poderia ter sido um artista como eu sou, eu penso. Mas, naquela hora da vida, o caminho se bifurcou e, no dele, tinha um buraco estreito que levava ao centro da terra.
E eu li a notícia e pensei ter ficado pouco chocado. Mas, se fiquei pouco, por que escrevo sobre isso, aqui e agora? Fiquei triste, muito triste com aquele ponto em que a história dele se afastou de nós. E pensei nos buracos de minhoca da cosmologia que dobram o espaço e criam atalhos entre dois pontos do espaço, ou do tempo. E pensei também no filme “Lúcia e o sexo”, no buraco redentor de buracos que, ao passarmos através dele, nos leva de volta a um ponto antigo da história, antes do “olhar para dentro do abismo”. E ter uma nova chance de mudar tudo. Olhar para cima e buscar novamente cipós entre as árvores, achar cristais encharcados de luz.

5.5.07

Pequeno Surto da manhã

Fui dormir uma e meia, acordo zumbi-romero e caminho automaticamente para o banheiro e depois para a cozinha. Hoje, vou num café da manhã, lançamento do guia da cidade. Adoro isso! Para mim, o máximo da elevação espiritual é passar o olhar pelo pote de granola e iogurte, conseguir dar apenas dois goles num suco de laranja matinal, limpar a boca e sair da mesa farta e variada com cara de urgência contida. Porém, se tem uma coisa que eu não tenho é elevação espiritual.
Acordo tão sem noção que esqueço que vou onde vou e mando um copão de leite com toddy e uma bisnaguinha seven boys goela abaixo. A esposa está de saída achando que o Nicolau está com rinite por conta do comfort extra mega especial plus com aloe vera cheirinho do campo usado em excesso nos lençóis.
Nicolau, carentão das sete e meia, resolve que não vai acordar para ir para escola. Os outros dois estão prontos, quer dizer, a Sofia tá pronta e o Joca está deitado de ponta cabeça na poltrona do sofá da sala comendo pasta de dente. Como diria o cara esquizo do the wall, “vejo uma tempestade se aproximando!”
Nicolau não levanta de jeito nenhum. Começo aquilo que os pedagogos e psicólogos dizem para não fazer: AMEAÇAR! Digo que estamos atrasados para a escola e que estou saindo e vou deixá-lo sozinho até a Nara chegar (e que vou trancar a porta). Os irmãos me olham com aquela cara de você não vai fazer isso, vai? Olho de volta com aquela cara de Hannibal Lecter em formação e eles entendem que é melhor não contrariar um pai prestes a surtar.
Saio, com eles, tranco a porta e vou para o carro, olhando para ver se o Nico começa a chorar, se aparece na janela, se pelo menos diz alguma coisa, mas não acontece nada. Faço tudo em câmera lenta, para dar tempo do arrependimento penetrar no coraçaozinho dele (ou, talvez, no do pai dele).
Agora estamos todos sentados no carro, eu com aquela cara de como me saio dessa situação, as crianças quietas e sem acreditar que eu vou realmente largar o irmão. E nada de Nicolau. Alguns segundos de enrolação silenciosa depois e a Sofia diz se pode me perguntar uma coisa. Viro a cabeça à espera e ela, numa cadência didática e mansa de terapeuta familiar, me diz - Pai, o que é mais importante: o filho ou a escola?
Mais alguns segundos de silêncio geral automotivo. Respondo com um genérico por que você está perguntando isso? e ela diz que, por nada! Outros segundos de silêncio aparecem antes que eu diga que vou ver se ele mudou de idéia e subo as escadas atrás do Nicolau. Nem olho para trás, mas num relance, vejo um sorriso discreto e aliviado no rosto dos dois que estão no carro, agora, esperando pela volta do irmão.

7.4.07

Católicos, Evangélicos, o Rabino, o Carrefour e a Páscoa

O mundo está cheio de histórias, é só prestar atenção, e saber quando elas começam e quando terminam. Sexta santa de manhã, oito e meia mais ou menos, chego ao carrefour para comprar creme de leite fresco para o bacalhau nas natas. Enquanto estaciono o carro, um outro grupo de pessoas já abastece o porta-malas com as compras, gelo, carvão e carne. Parece ser o famoso churrascão católico da sexta-santa. Os católicos são bem interessantes, a igreja força as regras ao ponto de ser (quase) impossível seguí-las. Existe uma coerência interna entre elas: se você não pode transar antes de casar (e tem que ser fiel depois) porque você tem que usar camisinha? É obviamente lógico. O problema é que lógica e vida humana quase não combinam. Quem sabe lá em Volcano, planeta do Spock, ela tenha alguma chance. E olha que vi um episódio do star trek que até os volcanos perdiam a lógica quando o assunto era reproduzir-se. Aliás, dizem que os únicos animais que transam com a finalidade de se procriar, são os católicos. O resto, incluindo mexilhões, uirapurus e macacos, querem mesmo é rosetar! Hahaha!
Não me levem a mal, sou católico de formação. Adorei casar no religioso, acredito e temo a Deus, principalmente durante a noite (ao meio dia sou mais descrente). Porém, fiquei pensando no churrascão da sexta-santa. Depois, entrei no supermercado e comprei o que faltava pro meu bacalhau, três colchonetes para a dormida dos tri na escola, leite de coco para o arroz e sorvete napolitano. Na saída, no mesmo estacionamento, passo com o carrinho perto do guarda do Carrefour que está abaixado, dando uma mordida de biscoito água e sal para um menino pequeno, que tinha olhado com olhos de vontade. Dou um sorriso para a cena, enquanto caminho em direção ao carro. Ao longe, escuto o guarda, agora sozinho, falando no walkie-talkie: “QAP, QAP, acabei de dar um pedaço de bolacha para uma criança. Jesus disse, dai pão a quem tem fome!”
E a distância me impediu de escutar o resto. E lá ficou ele satisfeito com sua boa ação diária. E eu fiquei pensando nos católicos, nas camisinhas, no churrasco no dia santo, nos evangélicos cumprindo seu dever com biscoitos. Pensei até no rabino Sobel, já que estava numa manhã ecumênica. Pensei, porque não deixam o coitado roubar umas gravatas em paz? A vida dele é muito mais que isso! O ser humano é assim: não lógico, promove a paz e a justiça mas tem fetiches por gravatas de marca. Todos nós somos assim.
Pensei, que a igreja católica marcou, deixou tudo de bom para o reino do céus. Só lá, seremos felizes. Aqui é só ralação e sofrimento. Eu, particularmente, estou duplamente ralado. Aqui na terra, porque não devo ter nem uns três anos de contribuição para o INSS, o que significa aposentadoria só por falência múltipla dos órgãos. E na outra vida, depois dessa existência de pecados, o máximo que consigo é um apartamento, face sol, no paraíso. Mesmo assim, se eu me arrepender. Só que para se arrepender é preciso achar que estava errado. É, realmente estou ralado e mal pago.
Pensei nos evangélicos continuamente pensando em Deus e orando (evangélicos oram, católicos rezam) e fazendo de cada momento uma aplicação das palavras da bíblia. Pensei numa aluninha minha da quinta série que me disse que o Diabo está aí, sempre tentando, e que daqui um tempo, no dia do juízo, os que estiverem com a marca do Demo (o M da motorola é uma delas) vão direto pro inferno. Sem dó, nem piedade.
E pensei também, que os pensadores evangélicos foram mais espertos e prometeram ganhos aqui e agora. É só seguir direitinho os ensinamentos e sua vida melhora, já. Para a outra vida ficam só a especialização e o MBA.
Sexta-feira santa e eu no Carrefour pensando tudo isso. São só (quase) nove horas e conversas sobre churrasco e biscoitos me animam a pensar na existência humana. Depois, ainda tem a Páscoa, o domingo, o almoço com a família, as conversas sobre filmes, a sobremesa que eu fiz com sorvete, bolo e ganache de chocolate meio amargo. Ainda tem marcar as escadas com patinhas feitas com farinha, esconder os ovos, deixar cenouras e água para coelhos famintos e cansados. Ainda tem crianças ávidas por chocolate e surpresinhas.
E mesmo que digam que Páscoa significa uma outra coisa que não tem nada a ver com guloseimas e consumo, não liguem! É através dos ovos de chocolate e do comércio intenso da sociedade em que vivemos, que conseguimos nos reunir e mostrar, uns aos outros, que ainda temos esperança e capacidade de renascer.

3.4.07

A Matemática do Nicolau

Ajudar nas tarefas de escola dos filhos é, para mim, o mais perto de um surto psicótico que posso chegar. São três pessoas com os mais distintos interesses, atenções (ou falta de)sendo administradas por esse que vos escreve. Que saudade do z da zabumba, o caminho era suave e eu não sabia!
Mas hoje em dia a coisa é diferente, pais globalizados, filhos inseridos no contexto escolar quase depois que deixaram de ser gametas no saquinho do papai e no ovarinho da mamãe. Imaginem a situação, uma fila de três esperando a vez para a tarefa junto com o pai. E olha que eu, pelo menos filosoficamente, sou contra tarefas de escola que estejam fora da ZDP do Vygotsky. Mas ser filosoficamente contra não é quase nada nessa vida-inferno tecida pelos outros. O Joca demora alguns pares de minutos para achar o lápis ideal para fazer o risco que contorna a figura que ele precisa assinalar. Desconfio que ele está me embaçando. Alguém aí sabe como se contam fonemas? Pois é, sílabas já não bastam, é preciso saber o som das palavras. E decompor 50 em vários números menores, vocês pensam que é fácil?
Ajudar nas tarefas é como ser uma lesma caminhando no fio de uma navalha, qualquer corridinha (ou demora) e a coisa acaba em morte. Quanto ensinar? O que explicar? Como me fazer entender? Quantos quilos de paciência tenho que comprar para aguentar o mundo da lua do nicolau?
Virei um pai vespertino full time, almoço, escovação de dentes, levar o joca na terapia, voltar, vamos fazer a lição? Esse texto mesmo, estou escrevendo agora, depois da pera e do chocolate e antes da lição.
Nicolau, b com a, ba, olha: ba-la! E b com o? e ele responde em tom de interrogação, tê? Miro o infinito, mesmo que esse infinito acabe ali, dois metros adiante, na parede da sala. Vamos decompor o 50, quantos 10 tem no 50? Pego uma caixa de palitos de fósforo. Começo bem em minha interação sócio-construtivista, coloco dedos, palitos, dezenas, unidades. Nada adianta, começo no Piaget e termino no Pinochet:
Olha, é fácil, no CINCOenta tem CINCO números 10, guarda isso e pronto!!! Ou eu faço isso ou o conselho tutelar vai acabar entrando na história.
Ainda tem mais dois na fila de espera. A Sofia, menina-mulher-professorinha-independente, se vira quase sozinha, mas esse quase é o suficiente para ser levado em consideração na minha mente perturbada. Nisso, já são quase quatro da tarde e eles me pedem um lanchinho. Lá vou eu passar margarina nas bisnaguinhas seven boys e bater um milk shake de toddy no shaker comprado em oferta no walmart. Minha tarde, já quase era. As liçoes estão assim, pela metade e eu também. Engulo alguma coisa também, um pedaço de queijo e toddy batido.
O Nicolau tem uma sequência de números de 1 a 15 para assinalar os pares e os ímpares. Ele faz um círculo em volta dos números 10, 11, 12, 13, 14 e 15 para grifar os pares. E depois ele assinala os números de 1 a 9 para destacar os ímpares. Pergunto por que ele fez assim e ele me diz que os números pares são aqueles que estão juntinhos (10, 11, 12...) e os ímpares são aqueles que estão sozinhos (1, 2, 3,...).
Quem já se sentiu impar nessa vida, não pode negar que ele esteja coberto de razão em seu particular raciocínio matemático, mesmo que não seja a resposta adequada. Quase rio. Ele fica preocupado de estar errado. Digo para ele que a resposta pode não ser a correta, mas, que eu gostei.
Depois, quando volta da escola, ele me diz, feliz, que aprendeu o jeito certo de achar os pares, que é só grifar um número e pular o outro, grifar um número e pular o outro, grifar um e pular o outro, sucessivamente, ad infinitum, igual minha pátria-paciência.

2.4.07

O ano passado em Mongaguá

Em janeiro passado, levamos as crianças para ver o mar pela primeira vez. Igual aos festejos do ano novo chinês, incrustamos uma semana de praia no meio do antes e do depois.
Eu sou uma pessoa que sofre de TPV (Tensão Pré-Viajal) e, por isso, fico irritado, mal-humorado e sempre acho que o mundo vai terminar antes do início da viagem. Combine todos esses sentimentos gostosos a elementos de uma realidade em que chovia demais e um buraco do metrô engoliu uma van recheada de pessoas em sampa e vocês terão uma pequena amostra de minha atormentada psiquê, envolta nas ondas da TPV.
Chegamos no domingo à tarde, eu, a claudia, os tri e meu irmão, o dia estava limpo e o Joca, quando viu o mar, queria descer do carro em movimento para ir para a água. Foi uma semana boa, muita coisa estava para acontecer no ano que viria, mas, naquela semana, só o que importava era estar lá. Levamos as crianças ao aquário, onde o polvo fez o maior sucesso.
Quer coisa melhor que atravessar a rua, sentar numa cadeira e esperar o movimento começar? Andar pela areia, ver a turba a sua volta, perceber que agora, com trigêmeos, água, protetor solar 35, bandeja de batata fritas na mesa debaixo do guarda sol, você é a farofa!
Nos dias de muito tédio do azul e do vento, enfrentávamos um shopping básico com ar condicionado e gente de shopping, lojas americanas e comida fast de shopping (e não de praia).
Antes do almoço, era só atravessar a rua para voltar para casa, lavar os pés no chuveiro da entrada para tirar a areia nojenta dos pés/chinelo, tomar banho morninho e passar leite de aveia davene para cheirar praia.
Almoçar por quilo ou em casa. Teve um dia que fiz torradas V de vingança, aquela que faz um buraco no meio do pão de forma, coloca manteiga na frigideira e quebra um ovo no buraco. Fica uma torrada amanteigada com um ovo frito incrustado. Depois deitar na cama e chorar com as pipas do caçador. Passear na feirinha, cheirando aveia, e tomar sorvete. Quem sabe ainda, voltar no finalzinho da tarde para caminhar pela praia. Nos primeiros dias, faziamos revezamento 3 X 3 para ficar com os incansáveis trigêmeos no mar, já que nem queriam saber da areia.
Hoje, consigo entender porque uma praia em janeiro significa tanto para todos. É como se o Hiro (do Heroes) parasse o tempo e tudo ficasse para trás e para frente, em pausa. Na mira de seus olhos só o mar azul, areia branca, picolés de fruta, peixinhos fritos, água de coco e cheiro de protetor solar, só isso. Todo o futuro (e o passado), por mais que você se esforce, fica afastado daquele momento, soprado pelo vento, carregado pelas ondas para longe. E essa pausa, essa bolha de paz é tão forte que é para lá que nós ajustamos nossos controles toda vez que o ano, agora semi-novo, ameaça fazer do nosso dia a dia, um pequeno inferno.
E sempre resgatamos, na mente, a imagem fresca e slow da praia cheia e farofenta do janeiro que passou. E mesmo com todos os distúrbios, a canseira com os mil alunos, as mudanças de escola e empregada, a incerteza de que tudo, tudo, tudo mesmo vai dar pé, é para lá que sempre vamos nos sonhos noturnos ou acordados.
E é hoje, aqui e agora, que apreciamos ainda mais, o momento parado no tempo que ficou para trás. Tão para trás, que já parece que foi o ano passado, em Mongaguá.